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sexta-feira, 21 de março de 2014

Daniel Martins é entrevistado pela Abrarte

‘O artista só consegue comunicar efetivamente o
trabalho que ele realizou nele mesmo’, Daniel.
Daniel Martins de Oliveira é natural de Uberaba (MG), mas reside no Rio de Janeiro desde 2006. Bacharel em Geologia e formação em Filosofia e Educação, é pós-graduado em Geologia Sedimentar e em Geologia do Petróleo. Fez mestrado em Petrologia Sedimentar. Trabalha como geólogo na Petrobras. Músico (violonista), é integrante do Änïmä, banda espírita de Taubaté (SP), desde sua formação. É associado da Abrarte desde novembro de 2011.

1. Como você começou seu trabalho com arte espírita?
Tudo começou com a mocidade espírita, há pouco mais de 15 anos. Naquela época, eu havia acabado de descobrir o rock e, juntamente com esta descoberta, minha vontade de tocar violão. Queria tocar o rock, mas acabei tocando muito mais nossas músicas de mocidade. Quando menos esperava, já estava tocando entre amigos, antes de nossos estudos, em nossos eventos de confraternização. Foi criado um laboratório de música onde nos reuníamos para compor e tocar as canções. Era muito prazerosa esta descoberta. Assim, amizades foram surgindo, laços foram sendo fortalecidos. Neste movimento conheci o Helton e a Malu[Helton Gudin e Mara Lucia Portella, ambos associados da Abrarte]. Hoje, estamos juntos no Änïmä. Primeiramente, participava de um grupo de música que era responsável pela harmonização durante os nossos grandes encontros de mocidades. Tocávamos o dia todo, acordando o pessoal pela manhã, agitando e embalando o evento, e contagiando essa atmosfera de fraternidade. A partir desse trabalho e de nosso envolvimento com a música, houve o desejo de criar um grupo no formato de banda. Lembro-me quando o Helton trouxe esta ideia e quando pensamos sobre o nome da banda. Éramos em torno de 7 ou 8 pessoas. De lá para cá, muitas mudanças ocorreram, pessoas saíram e outras entraram.

2. Como você define a arte espírita?
A arte espírita é arte. O que quero dizer com isso é que ela é um ofício. Antes de ser um sacerdócio, ela é um ofício. O artista sabe bem disso e mede seu trabalho pelo seu cansaço. É necessário um tempo de dedicação, aprimoramento, experimentos e ensaios. A arte é um campo aberto de exploração de significados e linguagem, aliado ao domínio técnico. No campo da arte, quase tudo é possível, mas obviamente tudo não é arte. Ela ainda precisa comunicar algo forte e sensível, algo belo e transcendente. A arte é um ofício feito por seres humanos para outros seres humanos, fazendo com que seja uma atividade plena de significados. Nosso objetivo não é simplesmente emular a beleza encontrada na natureza. Todas as músicas perdem quando comparadas ao canto de um pássaro e um belo quadro não substitui a beleza de uma paisagem. Mas, o que há na música e no quadro de diferentes? Ali há o Homem, o Espírito, que se lança e se descobre, que toca e é tocado. O quadro não substitui a paisagem mas pode nos ensinar bastante sobre o nosso olhar. Pode nos ensinar formas diferentes de se apreciar uma paisagem. Um pintor nos apresenta a primavera, outro, o verão. Outro ainda nos mostra a luz dos primeiros raios do sol tocando as árvores. Por isso, acho que devemos deixar os artistas trabalharem para explorar e desenvolver linguagens, antes mesmo de começarmos a definir o que eles podem fazer ou não. Seu público e seus pares irão escolher e ajuizar, estabelecer o bom gosto e o propósito. Já escutei que o funk nunca poderia ser utilizado como ritmo para uma música espírita. Mas tenho uma pergunta: tudo não pode ser transformado? Não excluo a possibilidade de aparecer um artista, um músico, que seja capaz de fazer isso e mostrar que o que se imaginava impossível passe a ser factível e agradável até aos mais exigentes. Estou forçando a barra? Talvez. Mas isso já aconteceu na história das artes. Como diz Kant: "O gênio da arte é a arte do gênio". Artistas transformaram e misturaram significados, realizaram belíssimas obras, e sem necessariamente ter isso como objetivo, acabaram por se tornar marcos. Na arte não há necessariamente evolução! São marcos que não definem uma linha de progresso. Vivaldi veio antes de Mozart, que veio antes de Beethoven. Quem é o melhor? E como comparar os três? Podemos falar em estilos, mas ainda assim eles permanecem intocáveis. Cada um com o seu gênio. Em matéria de arte, muitas vezes recuar é avançar. E avançar, na maioria dos casos é ir para qualquer direção, explorando e experimentando. Mas, depois de todas estas palavras, o que seria uma arte espírita? Em minha opinião, seria uma arte que possibilitasse aos espíritas aprofundarem e tornarem mais complexa e sensível sua religiosidade. Enfim, que possibilitasse a eles serem tocados nas fibras mais íntimas do espírito e do corpo. Que possibilitasse desenvolverem uma inteligência com um coração, ou um coração inteligente.

3. Você participa do Änïmä desde a sua origem. Poderia nos falar um pouco sobre a trajetória do grupo?
Em parte, acabei respondendo a esta pergunta. Muitas coisas poderiam ser ditas a este respeito. Mas, eu acho que vou me limitar a duas que considero importantes. A primeira que gostaria de enfatizar é o trabalho em grupo. Os integrantes do Änïmä mudaram ao longo dos anos. Somente o Helton, a Malu e eu estamos desde o início. Mas cada uma destas pessoas que não está mais conosco contribuiu de alguma forma com o trabalho. Todo o processo fez com que amadurecêssemos muito, melhorássemos no trato uns com os outros, nos tornássemos melhores espíritas, e também ganhássemos em nossa percepção técnica, artística. Nisto, este trabalho fez toda a diferença para nós. Antes de ser um trabalho para os outros, o Änïmä foi um trabalho de e para nós mesmos. Não havia e não há pretensão de nenhuma ordem de mudar o mundo; mas acho que meus amigos do grupo concordariam comigo se eu dissesse que gostaríamos de ser e viver esta mudança antes de tudo. Com isso, penso que o artista consegue comunicar efetivamente somente o trabalho que ele realizou nele mesmo, com rigor, exigência e disciplina. Ser e viver esta mudança. Isso me leva à segunda coisa que gostaria de dizer com relação a trajetória do grupo. Em determinado momento não transigimos com relação à qualidade do que estávamos produzindo. Pareceu-nos urgente melhorar mais e mais. Achávamos que as pessoas nos suportavam, que elas emprestavam bondosamente seus ouvidos para nossas vozes, muitas das vezes desafinadas, e para nossos instrumentos desarmônicos. Naquele momento, tomamos a direção de nos esforçarmos para progressivamente nos profissionalizarmos e realizarmos um trabalho mais excelente. Eu penso que isso foi determinante na definição da identidade do grupo. Queríamos continuar o trabalho dentro das casas espíritas, com a evangelização e a mocidade, mas ao mesmo tempo produzir e realizar trabalhos mais profissionais, como a gravação dos CDs e dos vídeos, e a produção de shows. Não digo que chegamos lá; falta muito ainda.

4. O Änïmä já gravou dois CDs e já está produzindo o terceiro. Poderia falar sobre esse novo trabalho?
Sim, já temos planos para o terceiro CD e ainda remasterizar as músicas de nosso primeiro trabalho, "Novo Tempo". O Helton já está compondo novas músicas e há uma grande quantidade de músicas prontas que podem ser incluídas. Dentre elas, uma música pela qual tenho grande carinho e que me emociona muito, "Bondade Infinita". Eu mencionava ao Helton que não poderíamos deixá-la de fora. Talvez ela seja o "carro-chefe" do novo CD, já foi modificada, repensada, e está com novo visual. Espero que todos gostem dela. Há ainda, nossos clipes. Acabamos de lançar o clipe de "Nuvenzinha". É um tipo de trabalho que queremos continuar fazendo; nós gostaríamos que o Änïmä tivesse cada vez mais uma expressão artística com múltipla linguagem, que comunicasse e sensibilizasse cada vez mais pessoas.

5. Você mora atualmente no Rio de Janeiro e o Änïmä tem base em Taubaté (SP). Como você consegue conciliar o trabalho considerando essa distância geográfica?
Muitas vezes, não consigo conciliar. Nos comunicamos através de telefonemas ou por e-mails. Eu também realizo viagens para Taubaté para encontrar o grupo e participar dos ensaios. Algumas vezes o Helton e a Malú vêm ao Rio de Janeiro. Com isso, conseguimos manter a comunicação e a amizade viva entre nós. O trabalho que realizamos pela internet através de nosso site e blog fez com que nos comunicássemos mais entre nós também. Todo o restante do grupo está em Taubaté e possui uma agenda mais fixa de reuniões e ensaios, isso garante que eles estejam mais afinados uns com os outros e que eu não atrapalhe muito quando me junto a eles.

6. Como você vê a música como meio de divulgação da Doutrina Espírita?
Vejo a música como meio de divulgação da Doutrina Espírita, em primeiro lugar, a partir de bons trabalhos que tenhamos divulgado fora do movimento. Por isso, acho imperativo que tenhamos uma exigência com nosso próprio trabalho e assim possamos bem representar a Doutrina no desenvolvimento da arte. Já tivemos, em algumas oportunidades, a chance de tocar em locais públicos e essa era talvez nossa principal preocupação. Bem representar a Doutrina Espírita. As pessoas podem ser sensibilizadas pelas letras, pela melodia e ao mesmo tempo pela maneira que agimos, que encarnamos o que estamos fazendo. Sem dúvida, esse é um caminho ético. Entretanto, ao mesmo tempo, penso que o conhecimento da Doutrina é comunicado e divulgado de outras formas. Quando eventualmente vejo apresentações musicais do movimento cristão evangélico, o que me toca primeiramente é a qualidade do que está sendo feito, depois, o fato de existir tantas pessoas emocionadas e unidas, comungando um mesmo ideal. Eu não escuto a pregação doutrinal, mesmo porque na maioria dos casos não há. A linguagem é outra. Eu discordo da ideia de que deveríamos dar aula de Espiritismo através da música, ou da arte. Que uma música para ser chamada de espírita deve ter sempre conceitos fundamentais da Doutrina em suas letras. A arte espírita está a serviço de outra coisa. Talvez, ela esteja aí para nos abrir, nos tornar mais permeáveis ao mundo, e para aprofundar a maneira como vivenciamos nossa fé e os ensinamentos. No caso, por exemplo, dos evangélicos, a música faz parte da maneira como eles exteriorizam e vivenciam sua fé. A música é parte constitutiva da religiosidade, não um adendo ou apêndice. Acho que temos um grande trabalho pela frente e penso que a cada dia todos juntos damos um passo.