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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sobre Facebook, Voldemort e a eterna guerra entre o Bem e o Mal


“Depois que o vento cessa, eu vejo a flor que cai.
Por causa do pássaro que canta, descubro a quietude da montanha.”
Poema Zen
I. Facebook

Passei a brincar com a Malu dizendo que eu a adotei como consultora, uma espécie de personal trainer, para o uso das famosas redes de relacionamentos. Leia-se aqui, principalmente, o Facebook e o Twitter. Alguns poderão achar meio ridículo isso; esta necessidade de ajuda para realizar um tipo de empreitada, que para a maior parte dos viventes, trata-se de algo parecido com respirar. Entretanto, quem vos fala é um legítimo espécime da geração “caverna do dragão” e “tênis kichute”. Sou um pouco devagar, vocês entendem. A coisa nos nossos tempos anda tão rápida, que parar para pedir informação, para se localizar, se tornou impossível. É mais importante a velocidade do que a direção para a qual se segue. Então, aqui estou, correndo.

Estava absorvido pela paisagem que se descortinava a minha frente, através das explicações da Malu, sobre como “curtir”, “compartilhar”, “cutucar”, “postar”, etc... quando uma janela no computador é aberta, e então nos deparamos com uma inesperada homenagem. Lá estava, em uma página de uma certa admiradora, a relação de pessoas famosas que correspondiam a seus amigos, grupos ou pessoas de seu conhecimento (descobri que se trata de uma brincadeira bastante comum no Facebook). E advinhem. O Änïmä estava nesta listagem relacionado a uma foto do malvado e amado Voldemort. 

Grande!

Neste momento, a Malu exclamou: “Olha só isso, que barato!”.
Eu, com uma cara de interrogação, perguntei intrigado: “Mas, o que significa isso, hein?”.
E o Helton, nosso urso panda bem-humorado, finalizou: “Eu gostei! Eu gosto do Voldemort!”.
Pois, iniciamos uma pequena discussão filosófica a respeito disso. A conclusão dela, um tanto quanto lisonjeira, é que Harry Potter não existiria se não fosse Voldemort...

II. Voldemort

Para os amantes da famosa série “Harry Potter” não é estranho dizer que seu personagem principal não existiria se não fosse o vilão Voldemort. Isso é algo que a autora da série fez com um grande brilhantismo. Vocês se lembram da história. Voldemort invade a casa da família Potter e assassina os pais do pequeno Harry. Aquele, tenta também, matar este. Ele aponta sua varinha para Harry e desfere o mortal feitiço: “Avada Kedavra”!!! O feitiço pega em Harry, mas ricocheteia na direção de Voldemort, que o recebe também; neste momento, parte da vida sai de seu corpo e vai para o pequeno Harry. Isso explicará, nós sabemos, porque Harry Potter estará sempre em conflito, o porque o chapéu seletor ficará em dúvida, o porque dele (Harry) ser um ofidioglota, e o porque ele muitas vezes sabia o que Voldemort pensava e estava tramando. Harry Potter era, na verdade, uma das “horcruxes” de Voldemort (para aqueles que não entenderam nada do trecho acima estão convidados a lerem os livros ou a assistirem os filmes...rs). Por isso, ele precisou ser morto por Voldemort no final da trama; enquanto parte da vida do vilão estivesse nele, o mal sempre estaria à espreita. Voldemort viveria.

O mais instigante disso tudo é que a linha que separa o bem do mal é muito tênue, no que diz respeito à sabedoria e à felicidade. O bem e o mal estão escritos em manuais e em cartilhas; segui-los não é garantia de nossa felicidade nem de nossa sabedoria. Mas, sim, de nossa obediência.

Isso pode ser visto pela intrincada história da morte de Dumbledore, pela suposta traição do professor Snape, ou pela prisão do tio de Harry, Sirius Black. A história é constituída por uma espécie de entrelaçamento entre bem e mal, e muitas vezes, opera uma subversão destes conceitos. O fio condutor não é a moral, mas a amizade e o amor.

Isso nos leva ao último ponto...

III. A eterna guerra entre o Bem e o Mal

Doutrinas constituídas por conceitos dualistas são intrinsecamente violentas. Em seu interior está sempre operando a guerra entre os contrários. Pessoas que compartilham da mesma fé apontam o dedo em riste uma às outras. Tribunais são arquitetados. Perseguições realizadas.

Estas doutrinas são todas herdeiras da religião de Zoroastro, estabelecida nas estepes da Rússia Meridional, por volta de 1200 a.C. Naquela época, o povo ariano passava por um momento de turbulência política, de atrocidades e sofrimentos, onde guerreiros cruéis, lutando sob as ordens do perverso Indra, investiam contra povoações amantes da paz e cumpridoras da lei. Vandalizavam e saqueavam uma aldeia após a outra, matavam os habitantes e levavam seus touros e suas vacas. O sofrimento e o desamparo de seu povo levaram Zoroastro a uma visão dicotômica e conflitante. O mundo parecia polarizado, dividido em dois campos irreconciliáveis, e inspirou uma religiosidade militante que divide uma realidade complexa em categorias supersimplificadas de bem e mal. Zoroastro projetou a violência de sua época no divino e a tornou absoluta.

Uma visão semelhante pode ser identificada na seita dos essênios há época de Jesus. Estes formavam uma espécie de comunidade monástica que habitava as margens do mar morto, e tinha a prática constante, ao longo de todo o dia, de realizar banhos rituais de purificação. Eles se intitulavam de “os filhos da luz”; os banhos de purificação os tornavam “santos”, no sentido de separados, de um mundo já corrompido que tendia necessariamente ao caos da escuridão. Era uma doutrina de pré-determinação; não sobrando nada à liberdade humana. Eles não permitiam a presença nem de mulheres nem de doentes na comunidade. Estavam ali simplesmente para morrer.

A visão de Jesus à época era integradora. O batismo que ele trazia não era pela água, era pelo fogo. O fogo comunga com a diferença e a integra, transformando-a em luz. Ele, mais do que ninguém, nos ensinou que não somos nossos erros. E se caímos, é para sempre batermos a poeira e nos levantarmos novamente. Este tipo de visão tenta combater a crueldade e a agressividade promovendo uma espiritualidade baseada na não-violência e na não-dualidade. Deus se tornou Pai e infinitamente transcendente; ele é o eterno e infinitamente Outro, ele nunca se conforma aos nossos desejos e ambições, nem ao que imaginamos ser bem e mal. É por isso que nos primórdios do cristianismo, os padres que habitavam os desertos do oriente, indicavam como uma prática vital, o silêncio e o jejum. 

Pois, seria sempre necessário nos esvaziarmos de qualquer palavra ou idéia, que imaginamos ser verdadeira, ou de qualquer satisfação ou sentimento, que imaginamos ser pleno. Para daí então, talvez, encontrar a verdadeira palavra e a plena satisfação. É necessário sempre caminhar, caminhar e caminhar...

É importante dizer isso em tempos como estes, onde observamos nascer cada vez mais, comportamentos e opiniões de um completo espírito moralizador, reacionário e sedentário. Uma língua, uma cultura, uma doutrina, um pensamento que precisam se defender do que é diferente, já estão fadados à morte. Quem tem uma baixa auto-estima, flerta com esta sedução.

Afastei-me um bom tanto de Harry Potter. No entanto, foi ele quem me trouxe até aqui.

É que me pareceu, que a trama deste jovem herói, juntamente com a inesperada homenagem de nossa ‘admiradora’ (lembram-se?), possibilitava este tipo de reflexão.

A moral, a idéia de bem e mal, estarão sempre aí para nos orientar. Mas, uma adesão estrita à lei, pode nos tornar canalhas legalistas. A vida ainda é maior do que isso.

Temos uma necessidade de um espírito de coragem e ternura.

A mensagem de Jesus antes de ser moral, era uma mensagem ética de amor.

A quietude da montanha pode ser a moldura do canto de um pássaro...

Daniel M. Oliveira
 

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